"Portador de necessidades especiais", "deficiente", "pessoa especial": essas expressões ainda aparecem em placas, formulários e conversas, quase sempre sem má intenção. Mas as palavras carregam uma ideia sobre a pessoa, e algumas dessas ideias já ficaram para trás. Este guia reúne os termos recomendados hoje e explica o porquê de cada um. Não é patrulha: é precisão e respeito.
Por que a palavra importa
A forma de nomear muda a forma de enxergar. Chamar alguém de "deficiente" coloca a deficiência no lugar da pessoa inteira. Dizer "pessoa com deficiência" põe a pessoa primeiro e a deficiência como uma das suas características, entre tantas outras.
O termo "pessoa com deficiência" é o adotado pela Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, da Organização das Nações Unidas (ONU), incorporada ao direito brasileiro com status de emenda constitucional, e pela Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146, de 2015). A sigla mais usada é PCD (ou PcD), que deve ser escrita por extenso na primeira vez que aparece num texto.
Os termos que ficaram para trás
- "portador de deficiência" ou "portador de necessidades especiais": a deficiência não é algo que se carrega e se pode deixar de lado. Use pessoa com deficiência;
- "deficiente" e "o deficiente": reduz a pessoa à deficiência. Use pessoa com deficiência;
- "pessoa especial" ou "anjo": parece carinhoso, mas afasta a pessoa da vida comum, com direitos e deveres como qualquer um;
- "normal", em oposição a quem tem deficiência: use pessoa sem deficiência;
- "surdo-mudo": a maioria das pessoas surdas não é muda, e muitas se comunicam em Língua Brasileira de Sinais (Libras). Use pessoa surda;
- "ceguinho", "aleijado", "retardado", "mongoloide": termos ofensivos. Use pessoa cega ou com deficiência visual, pessoa com deficiência física, pessoa com deficiência intelectual, pessoa com síndrome de Down;
- "preso a uma cadeira de rodas" ou "confinado": a cadeira dá mobilidade, não prende. Use pessoa que usa cadeira de rodas;
- "sofre de", "vítima de", "acometido por": tratam a condição como tragédia. Use tem ou é, como em tem síndrome de Down ou é autista.
Autismo: espectro não é escala
No caso do Transtorno do Espectro Autista (TEA), vale dizer pessoa autista ou pessoa com TEA, e evitar "autista leve", "autista grave" e "alto" ou "baixo funcionamento". Os critérios atuais falam em necessidade de apoio, que muda de uma área para outra na mesma pessoa. O tema está explicado em TEA na escola: o que todo educador precisa saber.
Muitas pessoas autistas preferem "pessoa autista" a "pessoa com autismo", por entenderem o autismo como parte de quem são. Na dúvida, a regra de ouro vale para qualquer deficiência: pergunte à pessoa como ela prefere ser chamada.
E o nome da APAE?
A sigla APAE significa Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais. O nome vem da origem do movimento apaeano, nos anos 1950, quando "excepcional" era a palavra usada. A APAE Barueri, fundada em 1996, mantém o nome jurídico da rede, mas no dia a dia fala em pessoa com deficiência, como recomendam a lei e as próprias pessoas com deficiência. A linguagem muda com o tempo, e mudar junto é sinal de escuta.
Mais do que trocar palavras
Usar o termo certo e continuar falando com o acompanhante em vez da pessoa não resolve. A linguagem é a parte visível de uma atitude, e a outra parte está na acessibilidade atitudinal. Também vale cuidar do tom: falar com um adulto com deficiência intelectual como se fala com um adulto, explicar siglas, usar linguagem simples. E, se errar, corrigir sem drama.
O tema faz parte do catálogo da Escola de Inclusão da APAE Barueri, no curso Comunicação não capacitista no serviço público e na escola, que tem uma aula sobre terminologia correta e por que ela importa. Escolas, serviços e empresas que queiram levar a conversa para as suas equipes podem escrever para escoladeinclusao@apaebarueri.org.br.

