Uma boa consulta depende de uma conversa que funcione nos dois sentidos: o profissional precisa entender o que a pessoa sente, e a pessoa precisa entender o que vai acontecer com ela. Quando o paciente tem uma deficiência, essa conversa pede alguns ajustes. Nenhum deles exige equipamento caro. A maioria exige atenção, tempo e o hábito de perguntar.
A comunicação acessível é um dos eixos da Escola de Inclusão da APAE Barueri. Está na terceira aula da trilha Inclusão, Humanização e Comunicação Acessível no SUS e nas barreiras de comunicação tratadas pelo Saúde Mais Inclusiva, o próximo curso da plataforma. As práticas abaixo são um ponto de partida, não um protocolo clínico.
Fale com a pessoa
Parece óbvio, mas é a falha mais comum: dirigir a pergunta ao acompanhante enquanto o paciente está ali, na frente. O acompanhante ajuda, e muitas vezes é essencial, mas a consulta é da pessoa com deficiência. Olhe para ela, chame pelo nome, pergunte primeiro a ela. Se precisar de ajuda para entender a resposta, peça ao acompanhante depois, e de forma que a pessoa perceba que continua sendo ouvida.
Outra pergunta simples resolve muita coisa: como você prefere se comunicar? Fala, escrita, Libras, gestos, imagens, prancha de comunicação. Quem convive com a deficiência costuma saber o que funciona. E as palavras também contam: o guia Linguagem que inclui reúne os termos recomendados para falar de deficiência.
Linguagem simples, uma coisa por vez
Frases curtas. Uma informação de cada vez. Palavras do dia a dia no lugar do termo técnico; quando o termo for necessário, explique. Siglas, só depois de ditas por extenso. Números e horários, de preferência por escrito. E tempo: muitas pessoas com deficiência intelectual, com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou com alterações de fala precisam de mais tempo para processar a pergunta e responder. Esperar em silêncio, sem completar a frase por elas, também é comunicar.
Mostre, além de dizer
Apoio visual ajuda quase todo mundo. Um desenho rápido, a caixa do remédio na mão, uma folha com os horários em tabela, uma imagem que mostra o exame que vai ser feito. Para pessoas com TEA, antecipar o que vai acontecer, em que ordem e por quanto tempo, reduz a ansiedade e torna a consulta mais possível. Avisar antes de tocar e explicar o que vai fazer é parte da mesma lógica, que também vale na sala de aula, como mostra a matéria TEA na escola.
Algumas pessoas usam Comunicação Alternativa e Aumentativa (CAA): pranchas com símbolos, aplicativos, cartões. Esse é o jeito de a pessoa falar. Dê tempo para que ela use o recurso e responda a ela, e não ao equipamento. O tema é trabalhado de perto pela Fonoaudiologia na APAE Barueri.
Surdez e deficiência visual
Com pessoas surdas, a primeira pergunta é qual a forma de comunicação dela. A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é reconhecida por lei como meio legal de comunicação e expressão no Brasil desde 2002, e muitas pessoas surdas têm a Libras como primeira língua, o que significa que o português escrito pode não ser simples para elas. Se houver intérprete, fale com o paciente, e não com o intérprete. Se a pessoa faz leitura labial, mantenha o rosto visível, sem máscara quando possível, e fale em ritmo normal, sem gritar.
Com pessoas com deficiência visual, apresente-se pelo nome e pela função, diga quando entrar e sair da sala, descreva o que vai fazer antes de fazer e leia em voz alta o que estiver escrito, como receitas, termos e orientações. Para conduzir, ofereça o braço em vez de empurrar ou puxar.
Confirme que foi entendido
Perguntar "entendeu?" quase sempre recebe um sim, inclusive de quem não entendeu. Uma alternativa é pedir que a pessoa explique com as próprias palavras: "para eu ter certeza de que expliquei bem, me conta como você vai tomar esse remédio". A pergunta coloca a responsabilidade em quem explicou, e não em quem ouviu, e evita constrangimento. É o que o curso Saúde Mais Inclusiva chama de letramento em saúde.
Por fim, registre. Anotar no prontuário como a pessoa se comunica, se usa Libras, CAA ou apoio visual, poupa o próximo profissional de recomeçar do zero.
Para continuar aprendendo
A Escola de Inclusão reúne conteúdos feitos a partir da prática de quem atende na APAE Barueri, com frentes como comunicação e linguagem, TEA e neurodesenvolvimento e direitos. Profissionais e equipes de saúde podem acompanhar o lançamento dos próximos cursos pela página da Escola ou escrever para escoladeinclusao@apaebarueri.org.br.

